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Forró em movimento: a dança que reinventou São Paulo

Da tradição nordestina aos múltiplos sotaques urbanos, o Forró dançado na capital paulista se transformou e segue em disputa entre memória, mercado e identidade

Antes de ocupar pistas lotadas, festivais internacionais e algoritmos das redes sociais, o Forró dançado em São Paulo era, sobretudo, memória.

Até o início dos anos 1990, vivia nos salões frequentados por migrantes nordestinos e seus descendentes. Era menos espetáculo e mais pertencimento, uma forma de manter o corpo ligado à terra de origem, mesmo a milhares de quilômetros de distância.

Três décadas depois, o cenário é outro. A dança se multiplicou em estilos, atravessou bairros, classes sociais e circuitos culturais. Tornou-se urbana, diversa, às vezes contraditória. São Paulo não apenas absorveu o Forró, mas ajudou a transformá-lo.

Essa transformação é o eixo do estudo Forró e suas Corporeidades Urbanas, que será lançado em 2026 pelos pesquisadores e professores Evandro Paz e Iris de Franco, que acompanham esse movimento tanto pela pesquisa quanto pela vivência direta na dança.

A cidade entra na dança

A virada começa quando o Forró deixa de ser um espaço quase exclusivo da comunidade nordestina e passa a circular por universidades, centros culturais e casas noturnas. Surge então o chamado Forró Universitário, não exatamente um estilo fechado, mas um momento de abertura.

Foi ali que a pista ganhou novos corpos e, com eles, novas formas de dançar.

“A pista de dança ditou as regras através de jovens sedentos pelo abraço do Forró e pelos novos passinhos da moda”, afirma Iris de Franco.

Dançarina, pesquisadora e professora, Iris observa esse momento como uma inflexão importante. Para ela, não se trata apenas de expansão de público, mas de uma mudança no próprio modo de construir a dança. 

Nos anos 1990 e 2000, bairros como Pinheiros se tornaram polos dessa efervescência. Casas como Remelexo, KVA e Projeto Equilíbrio formaram um circuito onde o Forró passou a dialogar com outras linguagens.

Samba-rock, lambada, capoeira, danças populares nordestinas,  tudo começou a se misturar, não como ruptura, mas como adaptação.

“Nada se cria, tudo se adapta. O Forró Dança vai sendo constantemente moldado ao tempo e ao espaço”, diz Evandro Paz.

Pesquisador, artista e também dançarino, Evandro entende essa transformação como um processo acumulativo. Para ele, cada incorporação não apaga o que veio antes, mas se sobrepõe, criando camadas que tornam a dança mais complexa e difícil de definir.

Evolução?

O termo “evolução” aparece com frequência quando se fala das mudanças no Forró ao longo das últimas décadas. Mas o uso dessa expressão incomoda os professores. 

“Eu não vejo a dança como uma evolução. O que acontece é um acúmulo de experiências, de corpos e de contextos que vão se transformando com o tempo. Cada fase do Forró carrega uma inteligência própria. Quando a gente fala em evolução, parece que o passado é menor, e não é. Sem o passado, a gente não dança hoje”, afirma Evandro.

Iris concorda, mas amplia o olhar para o campo da experiência.

“Prefiro falar em transformação. É um olhar mais acolhedor, sem hierarquizar o passado e o presente”, disse.

Se a música abriu caminhos, foi a dança que consolidou o fenômeno.

No Forró, quem dança não ocupa apenas o lugar de espectador. Participa da criação, altera o ritmo, interfere no fluxo da pista.

“Quem dança vira artista e obra ao mesmo tempo”, diz Iris.

Essa participação ativa transforma a pista em um território de negociação constante. Cada par carrega referências, limites e possibilidades, e é nesse encontro que a dança acontece.

Mas essa liberdade também trouxe tensões.

Com o passar dos anos, a dança incorporou técnicas da dança de salão, influências de outros ritmos e, mais recentemente, a lógica acelerada das redes sociais.

O aprendizado mudou e, com ele, o corpo.

“O corpo que aprendia na experiência virou um corpo que faz download de passos”, critica Iris. 

Para ela, esse processo encurta caminhos, mas também pode empobrecer a relação com o tempo da dança, que depende de escuta, repetição e convivência.

Evandro observa que essa transformação também altera a própria estrutura da pista.

“A dança foi ficando mais complexa, mais estética e, muitas vezes, excludente”, argumenta.

Segundo ele, a valorização de desempenho e repertório pode criar barreiras para quem está chegando, deslocando o foco da conexão para a performance.

Hoje, o Forró em São Paulo abriga múltiplos mundos que coexistem, nem sempre em harmonia.

“É um Frankenstein. São Paulo é múltipla, e o Forró, também. Muitos sotaques acontecendo ao mesmo tempo”, diz Evandro.

A imagem ajuda a entender uma dança feita de partes: estilos, técnicas, referências e comunidades que se sobrepõem sem necessariamente se integrar. 

Para Iris, essa multiplicidade é também um campo de disputa estética, simbólica e política.

Nos últimos anos, movimentos feministas e decoloniais passaram a questionar estruturas tradicionais do Forró, como os papéis fixos de condução. Mais do que mudanças formais, essas iniciativas reposicionam o corpo na dança, quem conduz, quem decide, quem ocupa o centro.

Apesar das transformações e das tensões que atravessam a história recente do Forró, há elementos que permanecem e estruturam a experiência da dança. Entre eles, o abraço ocupa um lugar central.

Como aponta Evandro, “está no abraço, na troca de peso, na conexão com o outro”. Mais do que um recurso técnico, trata-se de um princípio organizador da dança, que orienta a relação entre os corpos e sustenta a comunicação no par.

Iris amplia essa leitura ao destacar a dimensão simbólica desse gesto. Para ela, o abraço no Forró se aproxima de uma experiência de acolhimento: “é quase um colo, um espaço de comunidade”. 

Nesse sentido, dançar não se resume à execução de movimentos, mas envolve a construção de vínculos, ainda que efêmeros, entre pessoas que muitas vezes não se conhecem.

É justamente nessa tensão entre permanência e transformação que o Forró dançado em São Paulo se constitui. Longe de seguir uma trajetória linear, sua história se desenha como um campo de cruzamentos, onde diferentes influências, práticas e corporeidades se encontram, se chocam e se reinventam continuamente.

Talvez seja essa capacidade de incorporar mudanças sem perder certos fundamentos que mantém o Forró vivo. Mais do que um conjunto de passos, ele se sustenta naquilo que emerge do encontro entre dois corpos, na escuta, na negociação e na decisão compartilhada de dançar.

E para o futuro? Embora incerto, eles  imaginam um campo de possibilidades.

Iris projeta um cenário em que o Forró esteja presente na formação desde cedo, com a dança inserida no ensino básico e até mesmo a criação de uma Universidade de Forró. Para ela, é fundamental que o Forró Dança alcance o mesmo nível de valorização da música, com professores mais reconhecidos e remunerados.

“Gostaria que músicos, DJs e produtores não tratassem os professores como uma categoria inferior”, afirma.

A pesquisadora também chama atenção para as desigualdades dentro da própria cena, defendendo mais protagonismo para mulheres e pessoas conduzidas. “Ainda existe muita desvalorização e preconceito, inclusive com quem ocupa esse lugar na dança”, finaliza.

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