Entre abraços e passos: quando o Forró também vira cuidado
Estudos apontam benefícios da dança no combate ao estresse, à ansiedade e à depressão; para muitos forrozeiros, a pista também se tornou espaço de acolhimento, pertencimento e reconexão interior
Quando Maria Clara Rufino entrou pela primeira vez em um baile de Forró, em Brasília, ela não procurava apenas aprender alguns passos. Sem perceber completamente, buscava também uma forma de se reencontrar.
Nascida no Piauí e criada em meio à cultura nordestina, a relação com o Forró sempre esteve presente por meio da música e da família. Mas foi apenas em 2016, no tradicional Forró da Torre de TV, que a dança atravessou sua vida de maneira definitiva.

Naquele período, Maria Clara enfrentava um momento delicado. Entre depressão, baixa autoestima e um longo processo de reabilitação física e emocional, o corpo parecia distante dela mesma.
Foi nesse momento que a dança apareceu como um reencontro comigo mesma, e foi aí que me apaixonei de verdade pelo universo do Forró
O que começou como uma tentativa de voltar a ocupar espaços se transformou em rotina, comunidade e afeto. Vieram amizades, viagens, novas experiências e uma relação diferente com o próprio corpo.
“O Forró mudou minha autoestima, minha confiança e até minha forma de enxergar a vida. Tenho até uma música com um trecho que resume isso: ‘O Forró mudou minha vida, curou feridas e trouxe alegria onde era escuridão’”, diz.
A história de Maria Clara não é isolada. Em São Paulo, o engenheiro mecatrônico Victor Pacheco Bartholomeu encontrou na dança um caminho possível durante crises de burnout e depressão. Ele começou a frequentar aulas de Forró e samba de gafieira ainda na USP, mas interrompeu a rotina durante a pandemia. O afastamento coincidiu com um novo período emocionalmente difícil.
Foi então que o Forró reapareceu, desta vez também como recomendação terapêutica.
“A escolha pela dança veio inicialmente por sugestão de uma psicóloga. Depois, quando falei que já dançava Forró, outra terapeuta sugeriu que eu voltasse. E foi exatamente isso que eu fiz”, relembra.
Hoje, entre uma e duas vezes por semana, Victor ocupa pistas como as do Canto da Ema, Remelexo Brasil e Galpãozim. Para ele, o Forró vai além do lazer, é uma ferramenta de equilíbrio emocional.
“O Forró representa saúde mental para mim. É o momento de esvaziar a cabeça, socializar e me exercitar de forma alegre”, afirma.
As experiências de Maria Clara e Victor ajudam a ilustrar algo que a ciência vem observando com mais atenção nos últimos anos: dançar faz bem, especialmente para a saúde mental.
Uma série de estudos internacionais, publicados em revistas como Psychology of Sport & Exercise e Frontiers in Physiology, aponta que a dança ajuda a reduzir ansiedade, estresse e sintomas depressivos, além de diminuir os níveis de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse. Pesquisadores também identificaram aumento na liberação de endorfina e ocitocina, substâncias associadas ao prazer, bem-estar e fortalecimento de vínculos sociais.
Diferentemente de atividades individuais, a dança a dois exige escuta, conexão e presença. Em uma rotina cada vez mais acelerada e marcada pelo excesso de telas, a pista se transforma em um espaço raro de convivência física e troca humana.
Talvez por isso o Forró ocupe um lugar tão particular na vida de quem dança. Para alguns, é exercício. Para outros, comunidade. Em muitos casos, acaba sendo também um caminho possível de cura.
Apesar dos benefícios relatados por praticantes e observados em pesquisas científicas, especialistas reforçam que o Forró e a dança não substituem acompanhamento médico ou psicológico.
O cuidado com a saúde mental exige atenção ampla e suporte profissional adequado. Nesse processo, a dança pode funcionar como uma aliada importante, oferecendo acolhimento, socialização, movimento e qualidade de vida.