Anastácia 86 anos: a vida, o Forró e a força de uma mulher que faz história
Na casa onde segue compondo, a Rainha do Forró fala sobre envelhecimento, felicidade, amor, saudade, resistência feminina e o desejo de continuar vivendo intensamente
Quando chegamos para entrevistar Anastácia, a Rainha do Forró estava sentada à mesa da cozinha, completamente concentrada, escrevendo mais uma canção.
Caneta na mão, olhar fixo no papel e algumas folhas espalhadas diante dela, parecia mergulhada naquele universo silencioso onde nascem as músicas. A cena dura alguns minutos e carrega um significado difícil de ignorar: mesmo com uma compositora com mais de 800 canções gravadas e responsável por alguns dos maiores clássicos da música, existe sempre a sensação de que podemos estar diante da história sendo contada.
Talvez o que mais impressione em Anastácia não seja apenas a dimensão da obra construída ao longo de décadas de carreira. Aos 86 anos, o que realmente chama atenção é a forma como ela olha para a vida.
Sem pressa, sem amargura e sem nostalgia excessiva, ela fala do tempo com leveza. Ri com facilidade, lembra histórias com emoção e demonstra um entusiasmo raro para alguém que atravessou tantas fases da música brasileira. Enquanto muita gente teme envelhecer, Anastácia parece fazer exatamente o contrário: celebra.
“Eu acho viver tão bom. A vida é maravilhosa. Tudo que passou pela minha vida foi um presente que Deus me deu para que eu me tornasse uma pessoa melhor. Não tem um dia que eu amanheça aborrecida. Eu gosto muito da vida, gosto muito de viver”

A frase ajuda a entender a artista e a mulher por trás da Rainha do Forró. Em nenhum momento da conversa ela demonstra apego ao passado como um lugar melhor do que o presente. Pelo contrário. Anastácia fala da velhice com naturalidade e gratidão.
“Envelhecer faz parte do processo natural. Todo mundo queria viver sempre na juventude, mas não é assim que funciona. Só de chegar aos 86 anos, eu acho fantástico, pois tem gente que morre mais cedo e não consegue fazer tudo que gostaria. Eu aproveito cada momento e sou feliz por estar viva”, afirma.
Nascida Lucinete Ferreira, no Recife, Anastácia atravessou um dos períodos mais difíceis para mulheres dentro do universo do Forró. Quando começou, o gênero era dominado quase exclusivamente por homens.
Mesmo assim, construiu uma trajetória histórica. Teve canções gravadas por nomes como Gilberto Gil, Elba Ramalho, Fagner, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, entre outros, além de se tornar autora de clássicos que ajudaram a moldar o cancioneiro popular brasileiro, como Eu Só Quero um Xodó e Tenho Sede.
Ao longo da entrevista, Anastácia fala com orgulho da própria caminhada, mas sem transformar a trajetória em disputa. Quando lembra de Marinês, outra gigante da música nordestina, lembra que jamais pensou em competição.
“Quando eu vi que surgiu a Marinês, ela me encantou. Depois, eu surgi, mas nunca pensei em competir com ela, eu pensei sempre em somar com ela na luta de falar de Forró. Hoje temos várias mulheres jovens cantando e aderindo ao Forró, e isso também é fruto do nosso trabalho, fomos botando na cabeça das pessoas que Forró não é coisa de macho, é música para todo mundo”, analisa.
Mesmo celebrada como uma das artistas mais importantes da história do gênero, Anastácia ainda sente os efeitos de um reconhecimento muitas vezes incompleto, especialmente quando sua trajetória aparece ligada apenas a Dominguinhos.
Parceiros musicais e companheiros por mais de uma década, os dois escreveram juntos mais de 200 canções. Ela fala da relação com carinho, saudade e maturidade, mas não esconde um incômodo que permanece até hoje.
“Me incomoda quando alguém cita uma obra nossa e exclui meu nome. Por que me exclui, só porque eu sou mulher?. Foram duas forças que se juntaram para criar e fortalecer a música brasileira. Sou vaidosa com isso porque eu acho que nós fizemos tantas músicas, e essa soma foi muito importante para mim e para ele”
A saudade da parceria permanece viva. Às vezes, conta ela, até conversa com a fotografia dele. Mas a entrevista nunca permanece presa ao passado por muito tempo. Anastácia prefere falar da vida como movimento. Não demonstra ansiedade por novas conquistas materiais. O que busca hoje parece mais simples.
“Eu não sou muito vaidosa com conquistas materiais, quero conquistar a cada dia minha sabedoria em relação à vida”, reflete. Se pudesse dizer algo para a Anastácia do passado, ela diria: ‘Deu certo essa menina’”.
E quando perguntada sobre como ela definiria suas mais de oito décadas de existência, responde sem hesitar. “Felicidade total. Eu acho que sou uma pessoa muito legal.”
Talvez seja justamente essa a maior lição deixada por Anastácia. Não apenas a compositora monumental, a mulher que ajudou a abrir caminhos para outras artistas ou a autora de clássicos eternizados no imaginário brasileiro. Mas alguém que, depois de tudo o que viveu, ainda consegue olhar para o mundo com vontade de continuar vivendo.
Antes da despedida, ela deixa quase um conselho. “Viva com intensidade e procure saber o porquê das coisas. Às vezes, as pessoas se revoltam quando as coisas não saem como a gente queria, mas tudo tem um porquê. Com essas explicações, nós sofremos menos,” diz.
E talvez poucas pessoas tenham autoridade para dizer isso com tanta verdade quanto Anastácia, que está longe de desacelerar. A octogenária segue produzindo, compondo e pensando em novos projetos.
Recentemente, lançou um álbum em homenagem à sanfona, instrumento fundamental na construção do Forró. Mas não para por aí. A cantora também prepara um novo trabalho voltado ao samba, mostrando que sua relação com a música nunca esteve limitada a um único gênero.
E talvez um dos aspectos mais simbólicos dessa fase seja justamente a maneira como Anastácia encara o presente. Sem resistência ao novo, acompanha mudanças tecnológicas, utiliza ferramentas digitais e até explora recursos de Inteligência Artificial em parte dos processos criativos e de divulgação dos seus projetos.
A cena desmonta qualquer ideia simplista sobre envelhecimento. Enquanto muita gente associa a idade à interrupção ou apenas à memória, Anastácia segue criando, experimentando e planejando o próximo passo.
Mais do que celebrar uma artista, ouvir Anastácia hoje é também um exercício de reconhecimento. Reverenciar nomes como o dela significa entender que o Forró, que atravessa gerações, só existe porque antes houve quem sustentasse essa cultura nos momentos mais difíceis.
Valorizar esses mestres em vida talvez seja uma das formas mais importantes de preservar o futuro do próprio gênero.