“O Reino do Baião”: novo livro de Xico Nóbrega amplia os estudos sobre Luiz Gonzaga
O jornalista e pesquisador Xico Nóbrega lança nesta quinta (24), em Campina Grande, o livro “O Reino do Baião – Personagens, Obras e o Nordeste”. Fruto de mais de 30 anos de pesquisa, a obra aprofunda o legado de Luiz Gonzaga e amplia os estudos sobre o Rei do Baião e a cultura nordestina.
Obra será lançada nesta sexta (24), em Campina Grande, e reúne mais de três décadas de pesquisa sobre o legado do Rei do Baião.
Por David Chaves
O jornalista e pesquisador Xico Nóbrega lança nesta quinta-feira (24), às 19h, no Museu de Arte Popular da Paraíba, em Campina Grande, o livro “O Reino do Baião – Personagens, Obras e o Nordeste”. A obra aprofunda o olhar sobre a vida e o repertório de Luiz Gonzaga, reunindo conteúdos biográficos, análises e reflexões sobre os temas que marcaram a trajetória do Rei do Baião — da seca ao amor, da religiosidade popular ao ciclo do gado.
Resultado de mais de 30 anos de pesquisa e vivência jornalística, o livro reforça o compromisso de Nóbrega com o registro da cultura nordestina e soma-se a uma extensa produção literária que mantém viva a memória de Gonzaga.
Na entrevista a seguir, o autor fala sobre o processo de criação da obra, suas descobertas e a atualidade do legado gonzagueano.
Confira a entrevista completa:
EQMescapuliu: Como nasceu a ideia de escrever O Reino do Baião?
Xico Nóbrega: Eu sou jornalista de Cultura. Tenho longa carreira dedicada estudando a vida e a obra de Luiz Gonzaga. Desde o dia 4 de agosto de 1989, quando fiz a cobertura do sepultamento dele na cidade de Exu, em Pernambuco, como repórter estagiário na sucursal do jornal A União da cidade de Campina Grande, na Paraíba. Desde então, escrevi dezenas de reportagens gonzagueanas nesse jornal secular paraibano. Boa parte do conteúdo do livro advém dessa minha atuação na imprensa. Claro, esse material foi devidamente reescrito e ampliado para se adequar ao livro. Eu ainda acrescentei outros temas dos meus estudos não desenvolvidos no jornalismo.
EQMescapuliu: Quanto tempo levou entre a pesquisa e a escrita final do livro?
Xico Nóbrega: Essa obra, e outras mais inéditas, são frutos de mais de trinta anos de estudo e deslumbramento com a vida e a obra do imortal cantador da Asa Branca. Esse meu livro “O Reino do Baião / Personagens, Obras e o Nordeste” já estava pronto há anos atrás, mas somente agora, através de patrocínio do selo Cultural Unimed campinense, consegui publicá-lo. Na verdade, eu fui desenvolvendo outros projetos de livros em paralelo a este livro, que estão prontos, precisando somente de alguns ajustes: “Luiz Gonzaga: Musicografia & Compositores”, “Um Abraço Pra Ti Pequenina: A Política e a Polêmica no Baião Paraíba”, “Luiz Gonzaga: 150 Obras Comentadas”, e mais outros projetos de obras em maturação.
EQMescapuliu: O que mais te surpreendeu durante o processo de pesquisa sobre Luiz Gonzaga?
Xico Nóbrega: A imensa riqueza temática da sua obra. De modo geral, a música popular é predominantemente romântica, cantando o amor, né? Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, por exemplo, são cantores emblemáticos do amor, do encantamento de estar com a pessoa amada, da solidão pela sua ausência. Luiz Gonzaga também tem um repertório amoroso considerado, melhor dizendo: de desencanto amoroso. O baião Juazeiro é um clássico desse segmento, mas a sua obra vai além desse tema do romantismo pela sua variedade temática, como disse, decantando o complexo seca-inverno-migração, os forrós, o ciclo do gado no sertão nordestino, a cavalaria, a religiosidade popular, o cangaço e outros assuntos. Portanto, o gonzagueanismo é uma obra aberta à antropologia, à etnografia, à história, à literatura e a outras ciências.
EQMescapuliu: O que o público leitor pode esperar no seu livro, uma biografia, um ensaio, mergulho histórico ou tudo isso junto?
Xico Nóbrega: Tudo isso junto: conteúdo biográfico de Luiz Gonzaga, dos seus compositores e seguidores fundamentais, mas também o livro traz conteúdo analítico de alguns dos seus baiões e toadas imortais, como o leitor verá.
EQMescapuliu: Luiz Gonzaga é um artista muito estudado e celebrado. Que olhar você quis trazer para essa história?
Xico Nóbrega: Eu tenho me dedicado a fazer estudos gonzagueanos sobre os temas em geral contidos nessa obra. Por exemplo, quais são as músicas em que ele faz menção ao pai, à seca, ao ciclo do boi no Nordeste, a Padre Cícero, a Lampião, à esposa Helena Gonzaga, aos estados nordestinos em geral etc. Os meus estudos gonzagueanos me possibilitaram mergulhar nesse universo temático do imortal cantador da Asa Branca para afirmar que a sua obra é sui generis e única no Brasil e no mundo.
EQMescapuliu: Qual o momento da trajetória de Luiz Gonzaga que mais te emocionou enquanto escrevia?
Xico Nóbrega: São vários momentos emocionantes da trajetória do artista. Mas eu destaco a incrível história da Asa Branca, gozada no estúdio de gravação, por ser lenta e parecida com cantilena de cego de feira, e ainda teve um folheto de cordel arrasador contra ela no Nordeste, por profanar a fogueira de São João, que se tornou a música mais célebre do artista. Assim como o sensacional baião Paraíba, originalmente um jingle político de um candidato a senador, lançado na campanha eleitoral mais violenta da Paraíba no século XX, quando Luiz Gonzaga foi execrado pelos adversários do candidato a senador. Outro momento comovente da sua carreira artística foi o seu conflito com a música jovem da década de 1960, quando ele ficou fora da mídia do eixo Rio-São Paulo, dominada pela Jovem Guarda, embora o Rei do Baião continuasse reinando no interior do Brasil, sobretudo no Nordeste. Pois bem, apesar do declínio do baião nessa década, o momento de crise inspirou grandes êxitos gonzagueanos como Xote dos Cabeludos e Hora do Adeus.
EQMescapuliu: Você acredita que o legado de Luiz Gonzaga é devidamente valorizado no Brasil?
Xico Nóbrega: Sim, eu acredito. O engrandecimento dele, porém, independe do meio institucional, no sentido de reivindicar reserva de espaço na mídia para tocar os seus baiões, toadas e xote imortais, de achar que influências malévolas da indústria fonográfica prejudicam o que há de melhor na nossa tradição artística. Isto pode até funcionar para artistas nordestinos secundários, como Jacinto Silva, Clemilda, Gordurinha, menos para Luiz Gonzaga, que é primário, germinal, criador de escola. Os anos passam e a sua influência junto às novas gerações é crescente. Seu legado é sentimental, telúrico, passa de pai para filho. Nesse sentido, assistimos ao advento de um novo gonzagueanismo. Para não falar de sua influência estética. Não se menciona música genuína brasileira de matriz nordestina, no caso o forró, sem considerar o trio instrumental sanfona, triângulo e zabumba criado pelo Rei do Baião. Não se fala de acessório artístico genuinamente nordestino sem lembrar do chapéu de couro real gonzagueano.
EQMescapuliu: Qual a música do Rei do Baião você considera a mais representativa da sua obra e por quê?
Xico Nóbrega: Sem dúvida, a Asa Branca, pela sua condição histórica de primeiro maior sucesso de Luiz Gonzaga e sua obra mais célebre, mas também pela narrativa emblemática do nordestino migrante, debandando da desgraça da Natureza, deixando para trás a terra esturricada, a pessoa amada, vivendo distante do pé de serra, partido de saudade, na esperança de voltar ao torrão natal assim que o verde dos olhos dela se espalhar na plantação.
EQMescapuliu: Que mensagem você gostaria que o leitor levasse consigo ao terminar o livro?
Xico Nóbrega: Que o leitor e a leitora conhecessem um pouco mais da vida desse artista icônico, que não apenas é o mais extraordinário do Nordeste e do Brasil, mas também do mundo. Como o próprio Rei do Baião prenuncia de si em Estrela de Ouro: “Procurei no mundo inteiro / Pra ver se havia um estilo melhor / Mas até no estrangeiro / Este bom brasileiro é também o maior”. E é mesmo.