¨O forró é sagrado, abençoado por Deus. O importante é que toquem, cantem, dancem e amem”
De chinelo de dedo, como de costume, Dorgival Dantas se mantém tranquilo. Cumprimenta um, escuta outro, sorri para mais alguém. A poucos minutos do show, enquanto o público lota a tradicional casa de Forró na capital paulista, o compositor de grandes sucessos parece alheio à pressa. Fala com calma, no seu tempo e, como em suas músicas, transforma cada pergunta em história.
Entre lembranças e reflexões, o artista, nascido em Olho-d’Água do Borges (RN), falou sobre sua relação com São Paulo, marcada desde a infância pela ida do pai para a cidade, experiência que lhe trouxe saudade e deixou marcas profundas.
“Eu sempre tive muita vontade de tocar aqui, pois o que estava faltando lá [no Nordeste] começou a ser visto como diamante em São Paulo. Durante a pandemia, eu assistia aos shows do Canto da Ema e me via cantando e tocando neste palco”, conta Dorgival, que também aproveitou a passagem pela cidade para participar de um show do Trio Dona Zefa.
Mesmo lembrando de uma primeira experiência, há anos, pouco acolhedora na cidade, o sanfoneiro diz que a visita recente deixou outra impressão.
Não sou muito de sair de casa, mas pelo menos uma vez por ano seria bom repetir isso. Essa viagem me fez muito bem. Cheguei feliz e estou voltando mais feliz e mais grato, afirma
Entre as memórias recentes, ele destaca o encanto ao ver o coro do público em Itaúnas (ES), puxando em uníssono o “uh uh uh” que ecoa nos bailes.

A conversa também passa pelas origens. Dorgival relembra a história do terreno onde nasceria a chamada “Cidade do Forró”, projeto diretamente ligado à memória do pai. O espaço começou a ser idealizado a partir de uma madrugada em que o carro atolou no caminho de volta para casa. Ao olhar as luzes da cidade ao longe, decidiu: “o palco vai ser aqui”. Um gesto que traduz um desejo antigo: inverter o fluxo e fazer o público da capital seguir em direção ao sertão.

É nesse espaço, na Fazenda Tome Xote, em Olho-d’Água do Borges, que acontece o Derradeiro de Maio, festa que abre o ciclo junino e que cresceu ao longo dos anos. O que começou com cerca de 600 pessoas hoje reúne aproximadamente 4 mil.
Mesmo com o crescimento, Dorgival busca preservar a essência. Entre os projetos, está a criação de um Forró mais intimista, pensado para cerca de 200 pessoas, com foco na valorização dos músicos, especialmente os sanfoneiros de oito baixos.
Eu quero ver muito tocador de fole de oito baixos. Eu não aceito como esse instrumento é tratado. Ele é o pai de todos, e é minha maior frustração, porque eu não toco. É muito difícil, diz.
Ao falar sobre a própria vida, ele recorre a um ensinamento simples, vindo de casa: foi com o irmão que aprendeu que ser feliz pode ser mais fácil do que parece.
Sem recorrer a fórmulas, Dorgival prefere tratar o Forró como sentimento. Para ele, é preciso confiar mais no que é natural e evitar excessos, como em uma comida simples, que não precisa de muitos temperos para funcionar.
“Conversem sobre o Forró sem buscar ser o dono da razão. O Forró é uma coisa abençoada, divina. É melhor acreditar mais no natural, ser mais verdadeiro. Tem coisas que não são bacanas, como homenagear só depois que a pessoa se vai. A cultura é viva, é só deixar andar e fazer bem a sua parte. Quem sabe criticar menos e elogiar mais. O Forró alegra quem faz, quem toca, quem canta e quem escuta”, finaliza.
Entre uma história e outra, fica a sensação de que sua música segue o mesmo caminho de sua fala: direta, afetiva e profundamente conectada com quem está disposto a ouvir.
Viva Dorgival!