João Pessoa se declara “Capital do Forró”. Mas, sem políticas públicas, o título soa vazio
João Pessoa se autoproclama Capital do Forró, mas veta artigos que previam políticas públicas para o gênero. Sem ações concretas, o título soa vazio e expõe o abandono de artistas e tradições. O caso reflete um cenário nacional de descaso, onde conquistas culturais raramente viram medidas efetivas.
Prefeito sanciona lei que dá à cidade o novo status, mas veta artigos que previam ações concretas para promoção, preservação e ensino do Forró.
Por David Chaves
Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que este artigo não vai entrar no mérito ou na polêmica se João Pessoa merece ou não o título de “Capital do Forró”. A questão é outra: o que significa receber um reconhecimento desse porte sem que ele venha acompanhado de políticas públicas efetivas?
João Pessoa agora ostenta, oficialmente, o título de “Capital do Forró”. A lei, de autoria do vereador Guga Pet (PP), foi sancionada pelo prefeito Cícero Lucena (PP) e publicada no Diário Oficial do Município no último dia 7.
No entanto, junto à comemoração, veio também a frustração. Dois artigos fundamentais do projeto foram vetados pelo prefeito. Eram justamente eles que garantiriam que o título fosse mais que um gesto simbólico: a previsão de políticas públicas para promover e difundir o Forró, desde festivais e concursos, passando por oficinas nas escolas, até a criação de um acervo municipal com a memória do gênero. Também foi vetado o incentivo a parcerias com organizações, artistas e produtores para fortalecer o Forró como patrimônio imaterial da cidade.
O caso de João Pessoa não é isolado. No Brasil, o Forró já foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial, mas essa conquista nem sempre se traduz em respeito ou proteção. Nas festas juninas, por exemplo, o gênero é frequentemente substituído por outros ritmos, descaracterizando tradições e invisibilizando seus artistas.
No Congresso Nacional, a chamada “Lei Luiz Gonzaga”, que propõe medidas concretas de valorização e incentivo ao Forró, segue parada, sem avanço.
No Projeto de Lei. o vereador Guga Pet defende que “o Forró é uma das mais autênticas e representativas expressões culturais do Nordeste brasileiro, simbolizando a alegria, a resistência e a riqueza das tradições regionais”. Para ele, João Pessoa, especialmente durante o Verão e os festejos juninos, se destaca como um dos polos culturais mais vibrantes, um verdadeiro palco de celebração do Forró. A cidade abriga artistas, músicos, dançarinos e produtores culturais empenhados em preservar e promover o gênero, movimentando a economia criativa e fortalecendo o turismo cultural. Declarar João Pessoa como a Capital do Forró, segundo o vereador, é um reconhecimento justo que reforça a identidade cultural da cidade, estimula políticas públicas e consolida a cidade como referência nacional e internacional no Forró.
Mas enquanto políticos celebram títulos, a verdadeira luta dos artistas, músicos e grupos de Forró segue invisível e desamparada. Eles que carregam o peso de manter viva essa cultura, muitas vezes enfrentam descaso, falta de apoio e até o apagamento dentro das próprias festas que deveriam exaltar suas raízes.
A “Capital do Forró” sem políticas públicas sólidas é uma ironia cruel para quem vive e respira esse ritmo diariamente. É o reflexo de uma classe esquecida que batalha por reconhecimento, valorização e respeito.
No fim das contas, títulos são fáceis de criar. O difícil mesmo é transformar essas palavras em ações, e dar voz e vez ao povo do Forró, que não aceita mais ser coadjuvante na própria história.