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Editorial

Dominguinhos 85: o encontro que ficou, a foto que nunca chegou

No dia em que Dominguinhos completaria 85 anos, relembramos um encontro vivido em 2011, na Virada Cultural de São Paulo. Um camarim, autógrafos, generosidade e uma fotografia que nunca chegou. Uma crônica sobre memória, respeito e a força de um momento que não precisou de imagem para existir.

Dominguinhos 85: o encontro que ficou, a foto que nunca chegou

No dia em que o mestre completaria mais um ano de vida, a lembrança de um encontro que não coube em uma foto.

Por David Chaves

Hoje, 12 de fevereiro, Dominguinhos faria 85 anos.

E toda vez que essa data chega, eu lembro de uma foto que eu nunca vi.

O ano era 2011, e eu morava no interior, na cidade de São Carlos, aproximadamente 250 km de São Paulo. Não era uma distância longa, mas era um trecho caro para quem estava lutando para se inserir no mercado de trabalho.

Mas, para realizar um grande desejo, todo esforço é válido. E, quando soube que mestre Dominguinhos tocaria na Virada Cultural, não tive dúvidas: peguei meus LPs e embarquei em uma carona, a forma mais barata de chegar à capital paulista.

O desejo não era exatamente sobre o show, pois naquela época Dominguinhos ainda tocava bastante, era mais sobre o encontro, que seria no palco Barão de Limeira. Eu também não parava de pensar na possibilidade pegar os autógrafos nos discos dele.

Quem nasceu nos anos 80 e 90 entende: a gente não andava com câmera no bolso. Não existia celular e nem essa pressa de registrar tudo. Registro era outra coisa. Registro era caneta e papel e um autógrafo valia muito.

Era a prova física de que aquele momento tinha acontecido. A gente guardava assinaturas em encartes de disco, em livros, em folhas soltas. Guardava por anos, como quem guarda um pequeno tesouro.

Hoje, quase tudo vira selfie. Muitas vezes, nem se pede mais um autógrafo. A imagem vem fácil, imediata, e desaparece do mesmo jeito. Naquele tempo, o gesto era outro: esperar, se aproximar, estender a mão e torcer para a caneta funcionar.

Mas, voltando ao caso: na Virada Cultural, conversei com a produção de Dominguinhos. Eles falaram com o Mestre, que autorizou minha entrada.

No camarim, Dominguinhos me recebeu com uma generosidade tranquila. Conversou, ouviu e sorriu. Assinou meus discos com calma, como quem entende exatamente o peso daquele pedido. Eu não tinha celular, não tinha câmera. O momento acontecia inteiro, sem aviso de gravação e sem replay.

Naquele dia, apareceu um fotógrafo da Folha de S.Paulo um oriental, cujo nome eu não lembro. Ele fez o clique. A foto existia, e eu a vi.

Passei meu e-mail e esperei essa foto chegar.

Por um tempo, fiquei esperançoso. Conferia a caixa de entrada, o spam e pensava que talvez tivesse digitado algo errado. Mas a foto nunca chegou.

Às vezes, eu imagino que ela ainda esteja guardada em algum HD antigo, perdida em um backup da Folha. Um arquivo esquecido, com nome técnico, sem saber que ali dentro mora um encontro: um cara do interior e um mestre do forró dividindo alguns minutos de conversa.

Com o tempo, entendi que nem todo registro precisa chegar para ser verdadeiro. Algumas imagens vivem melhor assim, sem moldura, sem arquivo e sem tela.

No dia em que Dominguinhos faria 85 anos, eu não lembro do enquadramento, da luz ou da pose. Mas lembro da generosidade, do tempo partilhado e do respeito silencioso de quem sabia que estava diante de alguém gigante.

E sigo achando que a foto que eu nunca vi ainda existe. Nem que seja só na memória. Ou dormindo, esquecida, em algum backup antigo de jornal.

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