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Editorial

EDITORIAL- O FORRÓ TEM HISTÓRIA. O FORRÓ TAMBÉM PRECISA TER UM LADO

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, o EQMescapuliu defende a cultura, a democracia, o respeito ao povo nordestino e os direitos das mulheres. Porque o Forró também é uma questão política.

No próximo domingo, 25 de outubro, o Brasil voltará às urnas para escolher seu presidente. Em meio à polarização, às disputas de narrativas e aos ataques que marcam o debate público, há uma pergunta que também precisa ser feita dentro da nossa comunidade: é possível viver o forró, celebrar sua história e ignorar as decisões políticas que afetam sua existência?

Para nós, a resposta é não.

O forró nunca foi apenas uma música para dançar. É expressão de um povo, de sua história, de suas lutas e de sua capacidade de transformar dificuldades em arte. Nasceu e se fortaleceu no Nordeste, atravessou o país e se tornou parte da identidade cultural brasileira.

Por isso, não podemos tratar como irrelevantes as decisões que enfraquecem a cultura, os discursos que desrespeitam os nordestinos ou as atitudes que ameaçam direitos fundamentais.

E precisamos ir além: não existe coerência em celebrar o forró e, ao mesmo tempo, apoiar discursos e projetos políticos que atacam sua cultura, sua gente e sua memória.

Cultura não é favor. É política pública.

Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, o Brasil perdeu o Ministério da Cultura como pasta autônoma. Sua recriação só aconteceu em 2023, com a volta do governo de Lula.

Não se trata apenas de uma mudança administrativa. A existência de um ministério dedicado à cultura representa uma escolha sobre a importância que o Estado atribui à produção artística, à preservação da memória e ao acesso da população aos bens culturais.

O forró conhece bem a importância das políticas públicas.

Em dezembro de 2021, as Matrizes Tradicionais do Forró foram reconhecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil. Neste mesmo ano, Bolsonaro atacou o órgão, afinal, quem não lembra do “O que é Iphan? Explicaram para mim, tomei conhecimento, ripei todo mundo do Iphan. Botei outro cara lá”...

Essa conquista não nasceu de um gabinete. Foi resultado de anos de mobilização de artistas, pesquisadores, produtores e comunidades forrozeiras de diferentes regiões do país.

O reconhecimento ocorreu mesmo em um período de enfraquecimento da estrutura federal de gestão cultural. Isso demonstra a importância das instituições públicas e, sobretudo, da participação da sociedade na defesa de seu patrimônio.

Mas reconhecer não basta.

É necessário garantir recursos, formação, pesquisa, circulação artística, preservação de acervos e condições para que mestres e mestras transmitam seus conhecimentos às próximas gerações.

Como podemos defender o forró como Patrimônio Cultural do Brasil e, ao mesmo tempo, apoiar o enfraquecimento do Iphan, a extinção do Ministério da Cultura e o desmonte das políticas públicas que ajudam a preservar nossa memória?

Defender o forró também significa defender o Iphan, os editais de fomento, os espaços culturais e as políticas que permitem que essa tradição continue viva.

Não existe forró sem respeito ao Nordeste

É impossível falar de forró sem falar do povo nordestino.

Foi do Nordeste que vieram muitos dos artistas, ritmos, instrumentos e tradições que ajudaram a construir essa manifestação cultural. Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Anastácia, Dominguinhos e tantos outros transformaram vivências regionais em patrimônio de todo o Brasil.

Ainda assim, a cada eleição, vemos reaparecer discursos que desqualificam os nordestinos por suas escolhas políticas.

Um levantamento da Ativaweb DataLab identificou mais de 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos sobre o comportamento eleitoral do Nordeste nas 72 horas seguintes ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Desse total, 82,2% tinham tom crítico ao voto da região, o equivalente a cerca de 27 milhões de manifestações.

A região não pode ser tratada como inferior, ignorante ou incapaz de decidir seu próprio futuro.

Recentemente, um vídeo publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira, direcionado ao eleitorado nordestino e centrado em dificuldades sociais da região, voltou a provocar discussões sobre a maneira como o Nordeste é retratado no debate eleitoral.

É legítimo discutir pobreza, desigualdade e a responsabilidade dos governos. O que não podemos aceitar é que a população nordestina seja reduzida à miséria ou transformada em caricatura política.

O Nordeste é muito mais do que suas dificuldades. É produção cultural, conhecimento, trabalho, diversidade, criatividade e participação democrática.

E seu povo tem o mesmo direito de escolher seus representantes que qualquer outro brasileiro, sem sofrer preconceito por isso.

Como podemos exaltar Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Anastácia e tantos outros artistas nordestinos enquanto aceitamos a xenofobia contra o povo de onde essa música nasceu?

Não faz sentido celebrar a sanfona, a zabumba e o triângulo enquanto se despreza a população que construiu essa história.

As mulheres do forró merecem respeito, dentro e fora dos palcos

Também precisamos falar sobre as mulheres.

O forró tem uma história construída por grandes cantoras, compositoras, instrumentistas, produtoras, pesquisadoras, dançarinas e djs. Mulheres que abriram caminhos, enfrentaram preconceitos e continuam transformando esse universo.

Mas também é preciso reconhecer que nossa comunidade não está livre do machismo e da violência.

O episódio envolvendo o compartilhamento de imagens de mulheres sem consentimento em um grupo de Telegram, denunciado no meio forrozeiro, é um exemplo de como a violação da intimidade e o desrespeito podem estar presentes até em espaços associados à convivência e à alegria.

Não podemos defender a cultura popular e fechar os olhos para a violência contra as mulheres.

O feminicídio é um crime previsto na legislação brasileira. Sua existência não depende da opinião de um político. Negar ou minimizar a violência de gênero significa ignorar uma realidade que exige prevenção, proteção e responsabilização.

Como podemos celebrar as mulheres do forró e, ao mesmo tempo, apoiar discursos que negam a existência do feminicídio, relativizam a violência contra elas ou defendem medidas que enfraquecem seus direitos?

Não estamos falando de uma simples divergência de opinião. Estamos falando da segurança, da liberdade e da dignidade de mulheres que também constroem essa cultura.

O forró que queremos precisa ser um espaço em que mulheres possam cantar, tocar, dançar, produzir e simplesmente existir sem medo.

Não basta dizer que o forró é acolhimento. É preciso fazer com que esse acolhimento seja uma realidade para todas as pessoas.

O forró precisa de políticas públicas, não apenas de homenagens

A cada ano, vemos artistas e produtores culturais lutando para manter seus projetos. Festivais enfrentam dificuldades financeiras, espaços encerram atividades, mestres envelhecem sem o reconhecimento necessário e novos talentos encontram obstáculos para viver de sua arte.

Por isso, a discussão política precisa ir além dos discursos sobre identidade cultural.

Queremos políticas públicas permanentes, com orçamento, transparência e participação social.

Queremos editais acessíveis, descentralização dos investimentos, incentivo à formação musical, valorização dos profissionais da cultura e preservação dos saberes tradicionais.

Queremos que o forró seja tratado como patrimônio vivo, e não apenas lembrado quando há uma festa junina ou uma oportunidade de fotografia.

Essas são decisões políticas. E elas afetam diretamente o presente e o futuro da nossa cultura.

Não podemos aplaudir a valorização do forró nos discursos e aceitar seu abandono nas decisões de governo.

O nosso lado

O EQMescapuliu nasceu para contar histórias, divulgar artistas, preservar memórias e contribuir para o fortalecimento do forró.

Mas contar essas histórias também exige reconhecer as lutas que permitiram que elas existissem.

E, diante do momento que vivemos, não podemos fingir que todas as posições políticas são compatíveis com os valores que defendemos.

Não faz sentido amar o forró e apoiar a xenofobia contra nordestinos. Não faz sentido celebrar as mulheres dessa cultura e aceitar discursos que minimizam a violência contra elas. Não faz sentido defender nosso patrimônio e apoiar o enfraquecimento das instituições responsáveis por preservá-lo.

É claro que cada pessoa tem liberdade para fazer suas escolhas políticas. Mas liberdade de escolha não significa ausência de contradições. E essas contradições precisam ser discutidas.

Não queremos um forró que se manifeste apenas quando a sanfona começa a tocar, mas que se cale diante da discriminação, da violência e da retirada de direitos.

Nosso lado é o da democracia. É o da liberdade de expressão, do respeito às diferenças, da valorização do povo nordestino e da defesa das mulheres.

É o lado de quem acredita que cultura é um direito e que o Estado tem responsabilidade em sua preservação.

Isso não significa exigir que todos os artistas ou forrozeiros pensem da mesma maneira ou manifestem publicamente suas preferências. O direito de se posicionar também inclui o direito de não se pronunciar.

Mas significa afirmar que existem princípios que não devem ser abandonados em nome de conveniências políticas.

No domingo, cada brasileiro fará sua escolha.

Nós continuaremos fazendo a nossa: defender o forró, sua história e as pessoas que o mantêm vivo.

Porque o forró não é apenas o que a gente dança ou escuta. É também aquilo que a gente escolhe defender.

O forró tem história. O Forró     também precisa ter um lado.

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