Editorial | O Forró fez história, mas ficou sem voz
O Festival Internacional de Forró em Lille marcou a assinatura da Carta de Interesse pela candidatura à Unesco. Porém, a ausência de comunicação estruturada reduziu o feito a propaganda política, sem dar voz ao movimento. Para ser reconhecido, o Forró precisa de jornalismo que registre, explique e valorize sua história.
A assinatura da Carta em Lille foi histórica, mas sem cobertura jornalística, o Forró perdeu a chance de ecoar além da festa.
Por David Chaves
É inegável que o primeiro Festival Internacional de Forró, realizado em Lille, na França, marcou um momento simbólico. O encontro, que celebrou os 200 anos de relações entre Brasil e França, também foi palco da assinatura da Carta de Interesse que reforça a candidatura do Forró a Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco. Não reconhecer a importância desse passo seria ignorar a relevância de um movimento que há anos mobiliza artistas, produtores e instituições.
Mas justamente por compreender o peso desse acontecimento, é necessário apontar uma falha grave: a ausência de uma comunicação estruturada que desse voz ao próprio Forró.
A candidatura de um bem cultural à Unesco não se sustenta apenas em cerimônias ou assinaturas oficiais. Para ser reconhecido como patrimônio, é preciso comprovar que ele vive na memória coletiva, que se transmite entre gerações e que representa identidade, diversidade e valor comunitário. Nada disso se sustenta sem comunicação. E é aí que o jornalismo pode colaborar, transformando esses critérios em narrativa, visibilidade e permanência.
Sem uma estratégia de comunicação consistente, o Forró corre o risco de ser reduzido a pauta de gabinete ou a peça de marketing institucional. Em Lille, delegar integralmente essa comunicação aos governos fez com que um momento histórico se convertesse, em grande parte, em propaganda política. Basta observar a cobertura: predominam notícias de governos estaduais e portais regionais exaltando a presença de autoridades, enquanto faltaram matérias que explicassem aos forrozeiros a importância do ato, os próximos passos da candidatura ou o impacto histórico da conquista.
Mesmo as redes sociais, que poderiam aproximar o evento da comunidade, mostraram-se insuficientes. Instantâneas e passageiras, restringiram-se a postagens protocolares, sem oferecer informações consistentes àqueles que mantêm o Forró vivo.
Essa lacuna expôs uma contradição séria: em uma comitiva de cerca de 60 artistas, além de políticos, custeada com verba pública, não havia sequer um jornalista ou assessor de imprensa, do movimento, capaz de alimentar veículos nacionais, atender à imprensa estrangeira e informar o público de maneira adequada.
E isso não é detalhe. Comunicação é o que garante que a tradição seja registrada, que o pertencimento seja reforçado, que a diversidade seja valorizada e que o caráter coletivo do Forró seja reconhecido. Ignorar essa dimensão compromete o próprio argumento de patrimônio.
O EQMescapuliu, por exemplo, tentou diversos contatos durante o festival e precisou insistir para ser minimamente atendido. Como veículo comprometido com a história do Forró, nos colocamos à disposição para narrar os fatos que constroem esse movimento. Porque, se o Forró pretende ser reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade, é indispensável que haja quem conte sua história, e conte para todos.