Do chão ao palco: como foi criado o cortejo de João Gomes no Rock in Rio
Bruno Moura, CEO da Comunnik, conta os bastidores da apresentação que levou maracatu, frevo, bonecos gigantes e outras manifestações da cultura popular para dentro da Cidade do Rock
Antes de João Gomes subir ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026, há uma semana, o espetáculo já havia começado. Maracatu, frevo, estandartes, bonecos gigantes e pernas de pau atravessaram a Cidade do Rock em um cortejo que conduziu o público até a apresentação do pernambucano.
A cena fazia parte de uma estratégia pensada para que o show de João Gomes e Orquestra Brasileira não começasse da maneira convencional. Segundo Bruno Moura, CEO da Comunnik e um dos profissionais envolvidos na realização do projeto, a ideia nasceu ainda durante as primeiras conversas sobre o conceito da apresentação.
O briefing era apresentar João acompanhado por uma “Orquestra Brasileira”. Para a equipe, porém, isso não significava simplesmente colocar uma formação sinfônica ao lado do cantor.
“Quando falaram em Orquestra Brasileira, a gente entendeu que era o som de vários Brasis”, conta Bruno, em suas redes sociais.
A partir dessa interpretação, começaram a ser reunidos músicos e referências capazes de ampliar as sonoridades presentes no espetáculo. Mas a equipe ainda buscava um elemento que diferenciasse aquela apresentação dentro do festival.
Foi quando surgiu uma pergunta. “O que nunca foi feito?”
O show começa no chão
A resposta encontrada pela equipe foi tirar o início da apresentação do palco. Em vez de esperar João Gomes aparecer diante do público no Sunset, parte do espetáculo começaria em outro ponto da Cidade do Rock.
Nascia ali a proposta do cortejo.
A ideia era criar uma experiência em que o público encontrasse manifestações da cultura popular enquanto circulava pelo festival e fosse conduzido até o palco onde João se apresentaria.
“Queríamos que as pessoas fossem, de alguma forma, transportadas para a nossa cultura. Que aquilo despertasse uma memória de infância, de Carnaval, de São João”, explica Bruno.
O cortejo reuniu estandartes, maracatu rural, caboclos de lança, bonecos gigantes e pernaltas, além de referências conhecidas das festas populares pernambucanas.
Entre os personagens e grupos que participaram da ação estavam o Homem da Meia-Noite, Boi da Macuca, Galo da Madrugada, Rio Maracatu, Maracatu Piaba de Ouro e a Orquestra do Maestro Oséas. Bonecos gigantes de Luiz Gonzaga, Chico Science e do próprio João Gomes também integraram o percurso.
Uma ideia que precisava caber no Rock in Rio
Colocar um cortejo em movimento dentro de um dos maiores festivais do país, porém, exigiu mais do que pensar sua parte artística.
Bruno conta que o projeto passou por reuniões com a organização do Rock in Rio para entender como a proposta poderia funcionar dentro da dinâmica da Cidade do Rock.
O desafio estava principalmente na circulação. Com milhares de pessoas se deslocando simultaneamente entre os diferentes palcos e atrações, qualquer intervenção no espaço precisava considerar os fluxos de público e as questões operacionais do festival.
Segundo Bruno, algumas possibilidades discutidas inicialmente precisaram ser revistas justamente por causa dessa complexidade.
O cortejo, portanto, foi construído não apenas como uma abertura artística, mas como uma ação que precisava dialogar com a própria movimentação do festival.
Pernambuco encontra o Rio
Embora boa parte das referências estivesse ligada à cultura pernambucana, a construção do cortejo também buscou manifestações presentes no próprio Rio de Janeiro.
Bruno lembra que essa percepção surgiu anteriormente, durante a gravação do DVD de João Gomes, na Lapa, quando a equipe teve contato com grupos que mantêm manifestações como o maracatu em outros estados.
“A gente também foi beber das águas de quem está replicando a nossa cultura em outros cantos”, afirma.
Foi dessa aproximação que grupos e artistas do Rio passaram a integrar a construção do cortejo, entre eles o Rio Maracatu e os pernaltas.
O encontro reforçava justamente a ideia que havia orientado a criação da “Orquestra Brasileira”: reunir diferentes lugares, músicos e manifestações em torno da apresentação.
Do cortejo ao Palco Sunset
Depois de percorrer a Cidade do Rock, o cortejo chegou ao Palco Sunset, onde a proposta ganhou outra dimensão.
A apresentação de João Gomes reuniu instrumentos associados à música de concerto, como violinos, violas, flautas e violoncelos, a sonoridades de diferentes regiões do país, incluindo pífanos de Caruaru e tambores do Maranhão.
No palco, o repertório também passou por diferentes referências. João iniciou sua participação com “Eu Tenho a Senha” e apresentou músicas como “Deusa de Itamaracá” e “Dengo”.
Mas a história daquele show havia começado bem antes da primeira música cantada no palco.
Do briefing de uma “Orquestra Brasileira” à pergunta sobre como fazer algo diferente dentro do festival, a equipe encontrou no cortejo uma forma de transformar o caminho até o Sunset em parte do próprio espetáculo.
O público que acompanhou aquela movimentação não estava apenas indo assistir ao show. O show já estava acontecendo no caminho.
Por essas e por outras que o João de João Gomes foi tão comentado e celebrado durante a última semana.