De festa entre amigos a festival: Beijo Me Liga celebra 10 anos de história no Forró
Criado sem grandes pretensões em 2016, evento atravessou mudanças de formato, pandemia e transformações no público; edição comemorativa acontece de sexta (25) a domingo (27), em Sorocaba
Quando o Beijo Me Liga começou, há dez anos, não havia um grande plano para transformá-lo em um festival de longa duração. A ideia era bem mais simples: reunir amigos, fazer uma festa em torno do Forró, se divertir e, se possível, conseguir algum retorno financeiro.
Uma década depois, aquela primeira experiência chega a uma marca que nem seus próprios organizadores projetavam no início. De sexta-feira (25) a domingo (27), o Beijo Me Liga realiza, em Sorocaba (SP), a edição que celebra seus dez anos, depois de uma trajetória marcada por mudanças de formato, dificuldades para encontrar espaços, pandemia e também transformações no próprio público do Forró.
“A nossa intenção era fazer uma festa entre amigos, nos divertir e, se possível, obter algum lucro disso, fazendo algo de que a gente gosta muito”, relembra Felipe Moises da Silva, o Felipinho, idealizador do Beijo Me Liga.
Quando o risco virou uma virada na história
Entre os episódios que ajudam a explicar o crescimento do festival, Felipinho destaca justamente um momento em que o futuro do evento parecia incerto.
Sem um local para realizar uma das edições, a produção encontrou um hotel capaz de receber o festival. A mudança, porém, exigia abandonar o modelo com camping e apostar em uma estrutura mais cara.
O investimento elevado trouxe dúvidas sobre a resposta do público. Mas as dúvidas duraram pouco.
“Para nossa surpresa, vendemos todos os quartos do hotel em menos de 24 horas”, conta Felipinho.
A mudança ajudou a consolidar uma característica que, segundo Felipinho, passou a fazer parte da proposta do Beijo Me Liga: oferecer uma experiência com maior atenção à acomodação, alimentação e estrutura.
Essa escolha também acompanhou uma transformação percebida pela organização no perfil dos frequentadores.
“O público está mais seletivo. Boa parte da galera está mais velha, casada, com filhos. Essa percepção nos fez acreditar que nosso modelo de negócio veio para ficar”, afirma.
Para ele, a ideia é romper com uma experiência que durante muito tempo esteve associada a alguns festivais de Forró. “Festival de Forró muitas vezes foi sinônimo de passar dificuldades, com alimentação, acomodação e entrega. Nossa missão é justamente mostrar que pode ser feito diferente, com a qualidade que o forrozeiro merece.”
Da nostalgia ao Chama Chuva
Em dez anos, alguns shows também ganharam lugar especial na memória do idealizador.
Um deles aconteceu em 2024, quando Enok Virgulino, Aurélia Milagres, Thiago Lopes, do Caiana, e Edu Ribeiro dividiram o palco no chamado “Show da Nostalgia”.
Outro veio no ano seguinte e teve um significado ainda mais pessoal. Felipinho conseguiu levar ao festival Giovani Calmon, artista que acompanhava desde o início de sua relação com o Forró. Ao lado do BaiãoClub, o músico relembrou sucessos do Chama Chuva.
“Me senti vivendo um sonho”, resume.
A trajetória também levou o Beijo Me Liga a outros espaços de reconhecimento. Felipinho lembra que foi convidado a entregar uma homenagem a Tato, do Falamansa, e, no ano seguinte, recebeu das mãos do prefeito de Caruaru, Rodrigo Pinheiro, um prêmio de melhor festival de Forró.
“Ali eu olhei em volta e notei o tamanho da nossa responsabilidade.”
A pandemia e as zero desistências
Chegar aos dez anos, porém, esteve longe de ser um caminho contínuo.
Felipinho aponta a busca por locais capazes de atender às necessidades do evento como um dos maiores desafios enfrentados pela produção. Atualmente, o festival mantém parceria com a rede Golden Park, mas passou por diferentes espaços ao longo de sua história.
O momento mais delicado veio durante a pandemia, quando a organização chegou a considerar o encerramento do projeto.
A reação dos frequentadores pesou na decisão de continuar.
“Pensamos em descontinuar o projeto, mas o nosso público foi maravilhoso. Tivemos um total de zero desistências. Isso também nos motivou a continuar e voltamos mais fortes do que nunca.”
Dez anos depois
Hoje, Felipinho divide a condução do Beijo Me Liga com o irmão, Júlio, mantendo o diálogo com público, artistas e profissionais envolvidos na realização do festival.
E há um detalhe importante nessa trajetória: a longevidade não significou retorno financeiro imediato.
“Demorou anos para a festa dar lucro”, conta Felipinho. Para ele, os dez anos representam sobretudo a persistência em um projeto construído a partir da relação com o Forró.
“Seguimos ouvindo o que a galera tem a dizer, aceitando as críticas e ponderando os elogios. Pé no chão, Deus no coração e Forró na veia. Essa é a combinação que nos faz acreditar que ainda temos muita lenha para queimar.”
Neste fim de semana, quando o Beijo Me Liga voltar a reunir seu público em Sorocaba, a comemoração será também de uma história que começou de maneira despretensiosa: uma festa de um dia, feita entre amigos, que acabou chegando aos dez anos.